Apesar das sanções oficiais do governo e das evidências crescentes de atividades criminosas graves, a plataforma de mensagens Telegram continua a hospedar a Garantia Xinbi, um enorme mercado negro de língua chinesa que facilitou cerca de 21 bilhões de dólares em transações.
O mercado funciona como um centro para o branqueamento de capitais, o crime organizado e o tráfico de seres humanos, levantando questões urgentes sobre o compromisso da plataforma com os seus próprios termos de serviço e a sua responsabilidade para com a segurança global.
Um Mercado do Crime
Por mais de três anos, a Garantia Xinbi operou abertamente no Telegram, evoluindo para um dos maiores mercados ilícitos da Internet. Embora o Telegram já tenha afirmado proibir atividades criminosas, os pesquisadores observam que o Xinbi se reconstruiu repetidamente após ser expurgado.
A escala e a natureza dos serviços oferecidos na Garantia Xinbi são profundamente perturbadoras:
– Lavagem de dinheiro: Atuar como principal mecanismo financeiro para sindicatos de fraudes criptográficas.
– Apoio ao tráfico humano: Facilitar as operações de complexos fraudulentos no Sudeste Asiático (Mianmar, Camboja e Laos) vendendo itens como bastões eletrificados, tasers e algemas.
– Exploração: Hospedagem de listagens para assédio de aluguel e exploração sexual de menores.
O fracasso da aplicação
A gravidade da situação atingiu um ponto de ruptura no final de Março, quando o governo do Reino Unido sancionou oficialmente a Garantia Xinbi, designando-a como facilitadora do tráfico de seres humanos e da escravatura.
No entanto, a sanção não resultou na remoção do mercado do Telegram. Dados da empresa de rastreamento de criptomoedas Elliptic revelam uma tendência surpreendente:
– Nos 19 dias após as sanções do Reino Unido, a Xinbi facilitou mais de US$ 505 milhões em transações.
– O mercado adicionou dezenas de milhares de novos usuários, atingindo um total de quase meio milhão compradores e vendedores.
– Elliptic relata não ver sinais de que o Telegram tenha tomado qualquer ação para banir as contas sancionadas.
Defesa do Telegram vs. Realidade
O Telegram já defendeu anteriormente a hospedagem de mercados negros de língua chinesa, enquadrando-os como ferramentas para “autonomia financeira”. A empresa argumenta que esses mercados permitem que os cidadãos chineses contornem restrições financeiras opressivas impostas por regimes autoritários, enfatizando um compromisso com a privacidade do usuário e o direito de movimentar fundos internacionalmente.
Contudo, especialistas em segurança argumentam que esta defesa é cada vez mais insustentável.
“Existe agora o reconhecimento oficial de que Xinbi é predominantemente um ator ilícito”, diz Tom Robinson, cofundador da Elliptic.
A desconexão entre a posição de “privacidade” do Telegram e a realidade dos crimes facilitados – que vão desde o branqueamento de capitais em grande escala até ao abuso físico das vítimas do tráfico – sugere uma lacuna significativa na responsabilização.
A lacuna de responsabilidade
A persistência da Garantia Xinbi destaca um desafio crescente para a aplicação da lei internacional. Embora as redes cibercriminosas que operam noutras plataformas sejam frequentemente desmanteladas através de esforços globais coordenados, a enorme base de utilizadores do Telegram e o foco da sua liderança na privacidade criaram um santuário para o crime organizado.
Pesquisadores de segurança, como Gary Warner, da DarkTower, argumentam que a recusa do Telegram em agir não tem precedentes. Ele sugere que, se os cibercriminosos russos hospedassem mercados semelhantes, seriam imediatamente alvo de coligações internacionais. Resta saber se o Telegram e a sua liderança enfrentarão pressão semelhante para responsabilizar estes enormes ecossistemas criminosos.
Conclusão
Ao permitir que uma empresa criminosa sancionada e multibilionária opere à vista de todos, o Telegram enfrenta uma crise de legitimidade que opõe os seus valores fundamentais de privacidade à necessidade global de combater o tráfico de seres humanos e o crime financeiro organizado.
