A mídia social é tóxica. Pelo menos, essa é a manchete que você leria se apenas olhasse as manchetes. Prejudica a saúde mental. Isso coloca as crianças em perigo. Um estudo descobriu que uma adolescente mexicana viu referências ao suicídio em seu feed depois de apenas quarenta minutos de rolagem. Quarenta minutos. É isso.

O algoritmo não falhou. Funcionou exatamente como pretendido. Rolagem infinita. Gratificação instantânea. Projetado para fisgar você. É tão viciante quanto um maço de cigarros. Ou é o que todos afirmam.

Este medo desencadeou uma corrida global para proibir as crianças da Internet. A Austrália foi a primeira, banindo usuários menores de 16 anos no ano passado. Os Emirados Árabes Unidos bloquearam crianças menores de 15 anos no TikTok, Instagram e X em junho. O Reino Unido está a planear um recolher obrigatório à meia-noite para jovens de 16 e 17 anos, com o primeiro-ministro Keir Starmer a apontar para uma proibição total de menores de 16 anos antes do Natal (embora ele tenha acabado de se demitir, a legislação parece prestes a prosseguir). A França aprovou um projeto de lei para proibir menores de 15 anos, aguardando apenas a assinatura do Presidente Macron.

Parece uma solução, certo?

Aqui está o problema: as próprias organizações que lutam pelos direitos das crianças são contra estas proibições. Eles não estão torcendo. Eles alertam que cortar o acesso trata os sintomas, ignorando a doença. Em alguns casos, cria novos perigos.

Veja a Austrália. Seis meses após a proibição, sete em cada dez pais relataram que seus filhos ainda tinham contas. Sete em cada dez. Claro que sim. Adolescência é rebelião. Também é natural resistir à exclusão dos espaços onde existe a sua vida social. Se seus amigos estiverem online, você estará online.

Comparar as redes sociais aos cigarros é preguiça. Também está errado. Sim, é viciante. Mas não é apenas um vício.

Para a Geração Z, especialmente aqueles que atingiram a maioridade durante a pandemia, essas plataformas são infraestrutura. São bibliotecas. São praças da cidade. Quando um livro didático não tem a resposta, a quem você pergunta? Reddit. Quando um professor está preso, quem ajuda? Um tutorial do YouTube. São espaços de aprendizagem, de informação que muitas vezes as instituições públicas não conseguem fornecer.

Mais importante ainda, eles são tábuas de salvação.

Para jovens LGBTQ+, pessoas de cor e adolescentes com deficiência, a Internet oferece uma liberdade que a vida offline muitas vezes nega. É um lugar para explorar a identidade. Para encontrar modelos. Para perceber que você não é o único que se sente um estranho. Eliminar uma proibição sem fornecer uma alternativa não é segurança. É isolamento.

As redes sociais são mais parecidas com uma bicicleta do que com um cigarro. Construímos ciclovias e ensinamos regras de trânsito. Não proibimos andar de bicicleta.

Se proibirmos o acesso, qual será o próximo passo? Verificação de idade. Coletando IDs. Passaportes. Carteiras de motorista. Você quer colocar dados confidenciais de menores nas mãos de gigantes da tecnologia? Vá em frente. Esses dados serão hackeados. Não é um risco hipotético. O Discord enfrentou uma violação em 2025 envolvendo mais de 70.000 documentos de identificação. Agora imagine essa escala multiplicada por milhares.

A resposta não é exclusão. É regulamentação. É design.

Angie Contreras, especialista em proteção infantil online, diz claramente: a vida digital não está separada da vida real. É uma extensão disso. Então, trate-o como o mundo real. Não proibimos bicicletas. Sabemos que acidentes acontecem. Mas construímos ciclovias. Fazemos cumprir as leis de trânsito. Ensinamos as crianças a usar capacetes. Exigimos padrões de segurança para o fabricante.

Por que não podemos fazer o mesmo online?

Primeiro, envolva os usuários. Lorena Villavicencio, do Sistema Nacional de Proteção à Criança do México, diz que a chave não é o controle – é a proteção incorporada. Projete as plataformas para serem seguras para menores desde o primeiro dia. Se um aplicativo é viciante por design, isso é um bug do produto, não uma falha do usuário.

Em segundo lugar, responsabilize as plataformas. O Brasil já está pressionando por isso: melhores controles parentais, menos rolagem infinita, algoritmos transparentes e funcionários locais para responder às leis. As empresas de tecnologia não podem operar no vácuo.

Terceiro, ensinar alfabetização digital. As escolas precisam atualizar seus currículos. Não apenas “não fale com estranhos”, mas como os algoritmos manipulam a atenção. Como detectar desinformação. Como lidar com o cyberbullying.

Os pais também precisam de ferramentas. Iniciativas como o chatbot VigIA fornecem orientação para navegar nessas águas complexas. Mas sejamos claros: as crianças não são vítimas passivas. Eles são detentores de direitos. Eles estão navegando por uma paisagem complexa. Eles precisam de apoio, não de parede.

O objetivo não é proibir a inovação ou isolar grupos vulneráveis. É compreender o risco e gerenciá-lo com medidas proporcionais.

Se proibirmos as redes sociais, não resolveremos a crise de saúde mental. Nós apenas empurramos isso para o subsolo, em bate-papos criptografados e aplicativos não regulamentados, com menos visibilidade e sem suporte.

A proibição de Starmer pode ser aprovada. A lei da França pode permanecer. Mas vai funcionar?

Os dados da Austrália dizem que não. As crianças ainda estão lá. Os algoritmos ainda estão lá. Os riscos permanecem.

Talvez a verdadeira questão não seja como manter as crianças fora da Internet. É como tornar a Internet segura o suficiente para que eles permaneçam conectados. Porque eles não vão embora. E nós também não.

O que acontecerá quando surgir a próxima plataforma, ainda mais difícil de banir? Proibimos isso também? Onde isso termina?

Precisamos de políticas baseadas em evidências e não no medo instintivo. Precisamos de pais, escolas e governos trabalhando juntos. Precisamos de designers que se preocupem com a redução de danos.

O caminho atual leva a um impasse. Uma corrida armamentista digital que perde para ninguém além das crianças.

Existe outra maneira? Sim. Requer admitir que o problema não é a ferramenta. Foi assim que construímos a sala.